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quarta-feira, 3 de março de 2021

PETER BURKE: O HISTORIADOR CULTURAL

    


Neste vídeo demos uma #Pincelada​ sobre o livro “O que é história cultural?” do historiador britânico Peter Burke. Esta obra compila de maneira muito clara e acessível diversas obras que o autor teve acesso para nos presentear com esta indispensável síntese. Caso você já tenha lido ou até mesmo tenha alguma sugestão sobre este ou outros livros semelhantes, deixe aqui o seu comentário. 


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Pincelada: Victor Brecheret

Foto: Arquivo Pessoal (El País)

O escultor paulistano Victor Brecheret (1894-1955) elaborou diversos monumentos que podem ser vistos em diversos lugares de sua cidade natal. A diversidade de temas e formas revelam a sua trajetória artística desde seu ingresso no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, passando pelos seus estudos em Paris, até alcançar sua fase marajoara-indígena. Embora o Monumento às Bandeiras seja sua obra-prima, sua primeira obra a ser adquirida pela Prefeitura Municipal de São Paulo foi Eva, no ano de 1921.
Outra figura feminina concebida pelo artista foi a escultura tumular encomendada para o túmulo da poeta parnasiana Francisca Júlia da Silva, trabalho que foi recompensado com uma bolsa de estudos em Paris. Após esta fase, onde foi influenciado por Bourdelle e Brancusi, suas obras passaram a ter volumes mais expressivos e superfícies uniformes. A figura feminina em sua obra perde a delicadeza tradicional francesa e assume características e traços rústicos que evidenciam uma forma de arte próxima ao povo brasileiro. Por seus feitos é considerado hoje o mais importante escultor nacional do século vinte.




Referência:
Sandra Brecheret Pellegrini. Em cada canto de São Paulo um encanto de Brecheret. São Paulo: Noovha América, 2004 (Livro).


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Pincelada: Di Cavalcanti

Auto-retrato, 1943. Óleo sobre tela, 33,5 x 26,0 cm. Coleção particular.

Di Cavalcanti
(1897-1976) foi um extraordinário artista pictórico e lírico, pois sentia todas as coisas através de instantes de poesia. Como caricaturista, ilustrou a política e a sociedade de sua época com um olhar crítico, o mesmo que enxergou a necessidade de uma semana voltada à arte moderna em 1922. Com isso, ele não desejou somente uma chacoalhada, mas, uma nova postura frente às mazelas sociais brasileiras. Frustrado por não atingir sua meta, mudou-se para Paris.

Em sua maturidade artística, o pintor das curvas sensuais, das cores calorosas e do amor de suas figuras alcançou uma orquestração viva e equilibrada destas qualidades, que outrora, já se apresentaram estáticas. Contudo, na percepção do crítico Mário Pedrosa, Di surgiu como um colorista pictórico inigualável no país e também por sua forte personalidade, sua natureza boêmia, seus motivos populares e sua técnica singular é que ele merece o título de mestre brasileiro.


Referência:
Denise Mattar e Elisabeth Di Cavalcanti. Di Cavalcanti: conquistador de lirismos. Rio de Janeiro: Capivara, 2016 (Livro).

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Pincelada: Beatriz Milhazes

Foto: Divulgação
A produção da artista brasileira Beatriz Milhazes a tornou um dos grandes destaques mundiais da arte contemporânea no início do século XXI. A partir de uma complexa trama entre formas, cores, texturas e materiais diversos, seu trabalho sugere investigações sobre a própria condição da pintura na contemporaneidade. Sua técnica pictórica foi elaborada desde meados de 1989, sem nunca mais tê-la abandonado, e revela sua perspicácia em colocar um toque de exotismo para além do antropofagismo e do tropicalismo.
Pertencente a geração de 1980, teve sua primeira exposição individual em 1985 em uma galeria do Rio de Janeiro. Porém, para a artista, foi nos anos de 2000 que ela atingiu a maturidade, alcançando uma diversificação em seu trabalho que, da pintura, se desdobrou para a colagem, passando pela serigrafia até se estender ao âmbito da arquitetura. Tendo reconhecimento internacional, expôs a mais abrangente mostra panorâmica de sua produção artística no Paço Imperial, em 2013.


Referência:
Frédéric Paul. Meu bem: Beatriz Milhazes. Rio de Janeiro: Paço Imperial, 2013 (Livro).


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Pincelada: Miguel Rio Branco

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

De origem espanhola, Miguel de Rio Branco (1946) foi um autodidata que começou a pintar na década de 60. Porém, na fotografia encontrou seu melhor ângulo artístico, desde meados de 1968, onde começou a atuar profissionalmente após participação no Instituto de Fotografia de Nova York. Assim, depois de matricular-se na Escola Superior de Desenho Industrial do Rio de Janeiro, no final desta década, trabalhou como fotógrafo em experimentações cinematográficas no início da década de 70, o que garantiu currículo para mostras individuais já em meados de 1972.
Conforme o curador Germano Celant, as fotografias do artista exibem os elementos da realidade e documentam a sua existência. Sua fotografia nos revela uma espessura física, livre de elementos filosóficos ou psicológicos e o magnetismo nervoso e factual de suas imagens comunica um mal estar que provoca a tensão no observador, muito provavelmente por conta daquele núcleo secreto de nossas vidas preservado em seu trabalho. 


Referência:
Germano Celant. Miguel Rio Branco / Tunga. Rio de Janeiro: Brasil Connects, 2001 (Livro).


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Pincelada: Tunga

Foto: Everton Ballardin/Bienal Curitiba
A carreira artística de Tunga, pseudônimo de Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (1952 - 2016), iniciou-se em meados da década de 1970, onde expôs pela primeira vez no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Desde esta época, seu trabalho circulou internacionalmente, evidenciando sua predisposição para mídias diversas, tais como escultura, instalações, performances, desenhos e produções audiovisuais.
O processo de criação deste artista é enigmático. Na busca pela dimensão gloriosa, seu processo esbarra-se na dissociação e fragmentação das coisas configuradas em uma operação regeneradora, segundo o curador Germano Celant. Assim, Tunga criou um espaço antagônico entre a descoberta das linguagens antigas e a emissão das forças instintivas, onde não há propensões narcisistas evidentes, mas sim sujeito e objeto isentos de oposição. Em outras palavras, vemos em sua arte o espírito se fazendo matéria e a matéria se fazendo espírito.


Referência:
Germano Celant. Miguel Rio Branco / Tunga. Rio de Janeiro: Brasil Connects, 2001 (Livro).


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Pincelada: Lasar Segall

Autorretrato III, 1927. Óleo s/ tela, 50,5 x 39 cm. Museu Lagar Segall.
Podemos dizer que Lasar Segall (1891-1957) investiu em sua formação artística. Partiu de um bairro judaico da Lituânia em direção ao ensino acadêmico em Berlin e Dresden, na Alemanha e após uma breve temporada no Brasil, expondo obras em Campinas e São Paulo na década de 1910, o artista se deparou com a visibilidade das vanguardas expressionistas que mudaram o cenário artístico alemão.
Em seus primeiros trabalhos, Segall se encontrava distante da primeira geração expressionista pois na academia de Belas Artes adquiriu tendências realistas e impressionistas as quais prevaleceram nas pinturas vendidas em terras brasileiras. Inclusive, a imagem de exotismo do país na memória do artista pesou em sua decisão de se instalar definitivamente no Brasil na década de 1920, quando trouxe consigo sua esposa e sua experiência artística. Neste período, o pintor já investia na deformação cubo-expressionista devido ao impacto das estéticas vanguardistas, porém sem perder seu substrato naturalista.


Referência:
Fernando Antonio Pinheiro Filho. Lasar Segall: arte em sociedade. São Paulo: Cosac Naify e Museu Lasar Segall, 2008 (Livro).

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pincelada: Rubens Gerchman

Foto:AE

Em 2011, a preservação do acervo do artista brasileiro Rubens Gerchman (1942-2008) foi garantida graças ao Edital Pro Artes Visuais da FUNARTE, garantindo a criação do Instituto Rubens Gerchman e o lançamento do livro que gerou esta publicação: "Rubens Gerchman, o rei mau gosto". Seu trabalho consiste em pinturas, esculturas, fotografias, assemblagens e mais uma porção de obras em técnicas mistas que ajudam a pincelar a figura deste importante personagem.
Quando Nara Leão descreveu a obra "Lindonéia, a Gioconda do subúrbio" para Caetano Veloso, este compôs uma música homônima sem ao menos tê-la visto, lançando-a em seguida no LP "Tropicália ou Panis et circensis", de 1968, na voz da cantora. Gerchman se responsabilizou pela autoria da capa deste disco e fora isso, colaborou nos parangolés do também artista Hélio Oiticica, aquele mesmo que expôs no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1967, a obra Tropicália que, posteriormente, daria o nome ao movimento cultural baiano.


Referência:
Clara Gerchman. Rubens Gerchman, o rei do mau gosto. São Paulo: J. J. Carol, 2013 (Livro).

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Pincelada: Flávio de Carvalho

Autorretrato, 1965. Óleo s/ tela, 90,5 x 66,8 cm. Coleção MAM-SP.
Muitas vezes sendo atribuído como o primeiro performancer brasileiro que se tem notícia, Flávio Rezende de Carvalho (1899-1973) foi um vanguardista que ajudou na propagação da estética modernista de nosso país. Filho de legítimos barões de café, ainda adolescente estudou na Europa e lá presenciou a ebulição das vanguardas artísticas do início do século vinte. O futurismo de Marinetti, por exemplo, é tido pelo crítico Paolo Maranca como a inspiração para o expressionismo da obra pictórica de Flávio.
Após expor no Salão Revolucionário em 1931, participou ainda de todos os Salões de Maio, idealizado por Quirino da Silva, e também expôs nas três primeiras edições da Bienal Internacional de São Paulo. Munido de uma visão provocativa, realizou sua polêmica performance, experiência nº 2, em plena procissão de Corpus Christi, no ano de 1931. Se não fosse sua retirada estratégica das ruas, provavelmente seria agredido pela população que marchava durante o evento religioso.


Referência:
Luzia Portinari Greggio. Flávio de Carvalho, a revolução Modernista no Brasil. Brasília: 2012 (Livro).

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Pincelada: Frans Krajcberg

Foto: Felipe Gesteira
De origem polonesa, Frans Krajcberg* chegou ao Brasil em 1948, aos 27 anos. Mesmo tendo estudado na Escola de Belas Artes de Stuttgart, Alemanha, teve que trabalhar como operário do Museu de Arte Moderna para manter-se em São Paulo. Em 1951, além de participar na I Bienal Internacional de São Paulo, também expôs no 1º Salão de Arte Moderna de São Paulo pinturas que havia desenvolvido paralelamente ao seus serviços no museu.
Depois de morar em diversas cidades brasileiras, desenvolveu sua pesquisa artística rumo à exploração das inúmeras possibilidades dos materiais naturais. Com trabalhos que reaproveitam madeiras de queimadas e pigmentos da natureza, Krajcberg denuncia os crimes ecológicos e transforma os restos da natureza em seu próprio discurso de defesa. Como se suas obras nos traduzisse o pedido acanhado da natureza: "Você que gosta tanto de mim, por que não me defende?"

*Pronuncia-se "frans crájiber"

Referência:
Renata Sant'Anna e Valquíria Prates. Frans Krajcberg: a obra que não queremos ver. Coleção arte à primeira vista. São Paulo: Paulinas, 2006 (Livro).


segunda-feira, 2 de maio de 2016

Movimento Futurista


Tido como o primeiro movimento europeu de vanguarda, o Futurismo iniciou o século vinte rompendo com a arte do século dezenove. Armados de irreverência, os futuristas objetivaram, agressivamente, a ruptura com o passado ao buscar a destruição da sintaxe, a libertação das palavras, a disposição dos substantivos ao acaso e, principalmente, a demolição dos museus, bibliotecas e antiquários.
A figura do poeta italiano, Filippo Marinetti, é lembrada como líder do movimento que assistiu a ascensão das novas formas de comunicação decorrentes das descobertas científicas do século que se iniciava. Utilizando-se do jornal, veículo de comunicação de massa, Marinetti publicou seus "Manifesto futurista" e "Manifesto da literatura futurista", respectivamente em 1909 e 1912, tendo em vista fomentar uma nova arte que considerasse os seguintes fenômenos: a rapidez do mundo moderno; o amor ao novo e ao imprevisto; e a busca de conhecer tudo o que até então era tido como inacessível e irrealizável.
Esta nova forma artística, denominada futurista, valorizou um novo conceito de beleza, levando em conta o grotesco; mirou a dessacralização da arte, contrariando a beleza clássica; e posicionou-se radicalmente a favor da renovação da arte, de maneira autoritária e belicosa, enveredando-se assim, ao movimento fascista italiano.
Em nosso país, não houve a constituição de um movimento futurista, porém a poesia dos modernistas Mário de Andrade e Oswald de Andrade evidenciaram algumas tendências e inovações propostas pelo futurismo. Inclusive, Oswald, chamou Mário de futurista em artigo publicado nos anos 1921, no Jornal do Comércio. Escandalizado, Mário discordou e assumiu a culpa pelo erro de seu companheiro.
Também na Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, o compositor Heitor Villa-Lobos regeu uma orquestra com instrumentos atípicos para a música clássica, provocando assim, agitação e vaia do público que foi pego de surpresa pela inovação do músico. O ruído da folha de zinco, por exemplo, utilizada por Villa-Lobos está entre a lista de elementos não harmoniosos incorporados na música futurista, que também tinha por inspiração a cidade moderna, o mundo urbano e a tecnologia.


Referência:
HELENA, Lúcia. Movimentos de Vanguarda Européia. Editora Scipione, 1993.





domingo, 1 de maio de 2016

Citação Direta #02

“O termo vanguarda vem do francês avant-garde e significa o movimento artístico que ‘marcha na frente’, anunciando a criação de um novo tipo de arte. Esta denominação tem também uma significação militar (a tropa que marcha na dianteira para atacar primeiro), que bem demonstra o caráter combativo das ‘vanguardas’, dispostas a lutar agressivamente em prol da abertura de novos caminhos artísticos.”
-Lúcia Helena.

Referência:
HELENA, Lúcia. Movimentos de Vanguarda Européia. Editora Scipione, 1993.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Desenho


https://www.instagram.com/laudanoartes/

O desenho, sendo uma forma de linguagem, frequentemente é utilizado na comunicação. Entendeu ou quer que eu desenhe? Quantas vezes utilizamos este questionamento já dando razão, ainda que sem querer, para aquela outra ideia que temos, onde "uma imagem vale mais do que mil palavras", não é mesmo?
Conforme Souza e Parpinelli (2014, p. 41), o desenho "envolve operações mentais como representar, relacionar, escolher, simbolizar, significar, entre outros, interferindo de forma direta na formação de conceitos". Quando desenhamos, mesmo sem dominar a técnica, estamos desenvolvendo a concentração, a atenção e a coordenação motora, além de trabalharmos a intuição e a sensibilidade.
Podemos defini-lo ainda nas modalidades livre, cópia e dirigido. Respectivamente quando o processo é guiado pelo indivíduo, de maneira leviana, quando o foco é na reprodução e representação fiel, e quando o tema é determinado e frequentemente desperta emoções no espectador.
Além do propósito de comunicação, ainda podemos usar esta técnica artística para nos expressarmos, seja desenhando por hobby ou por profissão. Inclusive a profissão de design tem sua origem no desenho e muitos dos objetos de design que estão à nossa volta, como automóveis, mobiliários, ferramentas, etc, tiveram seu projeto concebido por meio do desenho.


Referências:

Joana José Hina Machado de Souza, Roberta Stubs Parpinelli. PESQUISAS DE MATERIAIS EXPRESSIVOS. Unicesumar, Maringá, 2014 (Livro).

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Missão Artística Francesa

Com a chegada da corte portuguesa no início do século dezenove o Príncipe Regente Dom João transformou o Brasil de colônia em principal país do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, fazendo do Rio de Janeiro a capital e sede de seu governo. Em relação ao período anterior, a chegada da Família Real trouxe grande progresso ao país, com a fundação de universidades, o desenvolvimento da imprensa periódica, a preocupação com os problemas de saneamento, etc. De todas as mudanças estruturais e culturais realizadas neste período, optamos por evidenciar a sistematização do ensino e da prática artística que se deu com a vinda da Missão Artística Francesa em 1816.
Antes deste período já havia no Brasil produções artísticas e até mesmo aulas de desenho e pintura. Porém os sistemas predominantes na colônia eram o da arte autodidata feita em nível de artesanato por pessoas humildes e o da arte elaborada pelos clérigos, baseada nos princípios da fé como na Idade Média. A produção artística colonial, sobretudo o barroco brasileiro, chegou a ser desqualificada pelo seu "amadorismo". A ruptura com a tradição barroca, religiosa e popular se deu pela inserção de uma prática academicista trazido pelos franceses de estilo neoclássico. Porém a realidade daqui era distinta da França revolucionária, os ideais e formalidades neoclássicos se encontravam fora do contexto brasileiro. Simplesmente era postiço e enganoso aplicar o sistema formal do neoclassicismo na representação da realidade brasileira.


O caráter heroico deste estilo simplesmente não combinava nada com o caricato monarca fujão que governava nosso país. Porém por encomenda deste, após Nicolas Taunay se oferecer como pintor para a Família Real e mais uma série de outros acontecimentos, Joachim Lebreton foi indicado para organizar o grupo de artistas que vieram da França com a finalidade de fundar no Rio de Janeiro uma Academia de Belas-Artes. A expedição que ficou conhecida por Missão Artística Francesa, trouxe cerca de quarenta estrangeiros. Os principais entre eles, além de Taunay e Lebreton, eram Jean Baptiste Debret, Grandjean de Montigny, Simon Pradier, Segismund Nuekomm e François Ovide. Somente dez anos depois da chegada destes a "academia" se tornou realidade, pois o ritmo na capital provisória do reino era lento.
O atraso também se deu por conflitos de interesses entre portugueses e franceses, numa rixa que refletia pouca importância dada às questões verdadeiramente artísticas. Ainda assim, aos poucos se concretizava aqui um ambiente de ensino artístico. Debret, que atuou como professor de pintura de história na academia é tido também como o responsável pela realização das primeiras exposições de artes plásticas no país, nos anos de Brasil Imperial. Um aluno seu de destaque neste período foi Araújo Porto-Alegre, o qual contribuiu na realização da exposição pública de dezembro de 1929. Victor Meirelles também se matriculou na academia e posteriormente se tornou ali um admirado professor. De lá pra cá foram muitas as denominações para este espaço de ensino que perdura até hoje sendo chamado de Escola de Belas Artes (incorporada à Universidade Federal do Rio de Janeiro).


Referências:
Anderson Ricardo Trevisan. DEBRET E A MISSÃO ARTÍSTICA FRANCESA DE 1816: ASPECTOS DA CONSTITUIÇÃO DA ARTE ACADÊMICA NO BRASIL. São Paulo, 2007 (Artigo).

Rodrigo Naves. A FORMA DIFÍCIL: ENSAIOS SOBRE ARTE BRASILEIRA. São Paulo, 2011 (Livro).


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Barroco brasileiro

No século dezessete a Paraíba também foi alvo da ocupação holandesa, situação que só se viu livre com a chegada de tropas portuguesas aliadas à alguns colonos em seu território por volta de 1645. Neste período espalharam-se sesmarias pelos vales dos rios Paraíba e Mamanguape alcançando também o interior e o sertão da capitania. Com a expulsão dos holandeses, a região buscou crescer e prosperar como nos anos anteriores à invasão, porém os lucros da Coroa Portuguesa com o açúcar foram afetados enormemente graças ao conhecimento do plantio da cana-de-açúcar levado pra fora do Brasil com os neerlandeses. Neste território se desenvolveu uma expressão barroca distinta da conhecida nas igrejas do Centro-Sul do país.


A população católica das regiões de Minas Gerais, Goiás e Rio de Janeiro, fosse ela abastada ou miserável, ergueu monumentos para a glorificação da fé muitas vezes correspondendo à uma necessidade de ostentação. Esta afirmação se dá pela riqueza das construções do barroco mineiro, traduzido em espalhafatosas dobras, redobras e brilho as quais refletem um refinamento da sociedade mineradora enriquecida pela corrida do ouro, pelo comércio ou pelo cultivo da cana. Enquanto isso, o barroco desenvolvido no litoral nordestino, de forma geral, preservou as características formais do estilo europeu, porém absorveu elementos da flora e da fauna locais em construções que objetivavam a catequese e a evangelização
O intuito catequizador desta expressão pode ser observado também no anonimato das produções. Os artesãos, artífices e artistas que atuaram nesta região não gozavam de uma posição social influente, por isso sua assinatura era desnecessária. O importante era a funcionalidade da obra e não o virtuosismo daquele que a fez. Aqui já podemos pontuar nitidamente o atraso em relação à posição do artista na sociedade, que na Europa deste período, já tinha atingido um status de destaque no meio social. Na Paraíba há uma total despreocupação com o registro da autoria das obras do estilo.
Resolvemos situar o Barroco brasileiro para além de Minas Gerais pela necessidade de expandirmos o conhecimento para além do convencionado. Pois contrariando a ideia apresentada sobre o anonimato, percebemos em nosso país o mito construído com Aleijadinho, personagem romanticamente baseado em Antônio Francisco Lisboa, escultor mulato filho de escrava com o arquiteto português Manuel Francisco Lisboa e que teve seu legado iniciado pelo diretor de ensino de Ouro Preto, Rodrigo Ferreira Bretas em 1858, cinco décadas depois da morte do escultor. Atualmente, mesmo não contendo obras de Antônio Francisco Lisboa assinadas, os colecionadores atribuem mais de 400 trabalhos ao dito genial artista Aleijadinho.


Referências:
Carla Mary da Silva Oliveira. O BARROCO DA PARAÍBA: ARTE, RELIGIÃO E CONQUISTA. João Pessoa, 2003 (Livro).

Leandro Narloch. GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO BRASIL. São Paulo, 2011 (Livro).



domingo, 19 de abril de 2015

Descobertas na Europa e no Brasil

Desde a Idade Média era comum viajantes contarem histórias acerca da existência de tesouros em países distantes. Entretanto, investir nas navegações ibéricas era arriscado e o lucro incerto, pois até então ninguém desconfiava que elas desencadeariam o desenvolvimento do capitalismo comercial. Espanha e Portugal assumiram a paternidade do Novo Mundo e a Santa Madre Igreja foi o suporte básico do assentamento de todo este projeto de colonização. Assim, o pensamento cristão adaptou-se à política expansionista enquanto os demais comerciantes europeus viam a navegação, e principalmente o saque e o contrabando, como alternativas melhores à tarefa de colonizar.

Em abril de 1500 antes que a armada do fidalgo Pedro Álvares Cabral desembarcasse na então Ilha de Vera Cruz, chamada por seus habitantes de Pindorama (Terra das Palmeiras), o primeiro contanto com os nativos se deu com a subida de dois deles, falantes da língua tupi antiga, à bordo do principal navio da frota portuguesa. Foi Pero Vaz de Caminha quem registrou a festa de recepção regada à agrados e comidas. Estes dois indígenas foram os primeiros de muitos a conhecerem os hábitos e costumes do Velho Mundo que se deu pela gastronomia, pelo modo de pensar e pela utilização de plantas, animais, tecnologia, etc.


Quando as grandes navegações retornaram para a Europa com o conhecimento de que a Terra era redonda e a partir da racionalidade desenvolvida com a matemática e geometria, o mapeamento do mundo atestou o domínio da Europa sobre os demais habitantes do globo. O mapa-múndi consistia no desenho de uma imagem à partir de um único ponto, assim como a recém conquistada perspectiva científica necessitava do ponto de fuga para representar o espaço de forma que simulasse perfeitamente a realidade. Mesmo que a perspectiva já tivesse sido intuitivamente experimentada por artistas anteriores à este período, foi somente com Filippo Brunelleschi que ela atingiu sua exatidão matemática conferindo a ilusão de profundidade num suporte bidimensional.

Ao passo que os artistas renascentistas definiam a perspectiva e os conceitos de equilíbrio, harmonia e clareza em suas composições, os nossos índios não haviam nem chegado à Idade do Bronze. Antes de Cabral, os indígenas desconheciam a domesticação de animais, a escrita e a arquitetura em pedra, porém, eram desenvolvedores de uma arte alegre e utilitária. Estas manifestações artísticas e estéticas representavam as tradições da comunidade em que estavam inseridas, diversificando assim de uma tribo para a outra, e nos são apresentadas majoritariamente em forma de pintura corporal, arte plumária e cerâmica com destaque para as fase Marajoara e cultura Santarém expostas atualmente no Museu Paraense Emílio Goeldi.


Referências:
Graça Proença. HISTÓRIA DA ARTE. Sem ano (PDF).

Janice Theodoro da Silva. DESCOBRIMENTOS E COLONIZAÇÃO. São Paulo, 1987 (Livro).


Leandro Narloch. GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA HISTÓRIA DO BRASIL. São Paulo, 2011 (Livro).


domingo, 12 de abril de 2015

Extravagâncias no renascimento da arte

O início da Idade Moderna se dá, tradicionalmente, a partir da conquista de Bizâncio - ou Constantinopla -, capital do Império Romano do Oriente, pelo Império Otomano em 1453. Com a transição do século quinze para o dezesseis começa a surgir na Europa uma descredibilidade na estrutura religiosa da Igreja Católica. O abalo deste sistema que predominou na Idade Média se deu pelas crises morais dos papas, bispos e sacerdotes, pelas indulgências, pelo nepotismo, dentre outras imoralidades do clero em geral. Neste cenário, o humanismo emerge trazendo consigo o renascimento do cidadão europeu, conhecedor agora da autonomia, da liberdade e do senso ético.

O início do século dezesseis, chamado de Cinquecento na Itália, foi o período que se destacaram os mestres famosos das escolas de Florença, Roma e Veneza. Sendo este período também conhecido como o mais célebre da arte italiana, a saber, pelas figuras de Brunelleschi, Michelangelo, Donatello, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Tintoretto, entre outros. Ao redescobrirem a arte clássica greco-romana os mestres italianos se tornaram primorosos na perspectiva científica, na anatomia da figura humana e nos conhecimentos das formas arquitetônicas. Estas descobertas acabaram sendo propagadas para a Alemanha de Albrecht Dürer e Países Baixos de Hieronymus Bosch.


Entretanto, Bosch, conhecido por ser o maior artista da região nesse período, não deixou ser levado pelo emergente estilo moderno advindo da Toscana. O primeiro biógrafo a escrever sobre este mestre flamengo foi Giorgio Vasari e desde essa época, a crítica já considerava a extravagância das composições como característica predominante em suas obras. Na arte de Bosch, nascem criaturas assustadoras e terríveis amálgamas de homem e animal, paisagens fantásticas e alegorias demoníacas que nunca haviam sido vistas antes e as quais demarcam nitidamente o afastamento das formas apresentadas durante a Idade Média. Este marco que o artista alcançou ao retratar os medos do homem medieval naquele momento em que o espírito moderno se infiltrava pelas brechas das antigas ideias que continuavam em voga, fez sua pintura não ser muita aceita e nem compreendida pelos intelectuais da época. 

Erasmo de Roterdão, eminente filósofo da Renascença, embora nunca tivesse mencionado o pintor em seus escritos, se posicionava contra as composições pictóricas que não retratavam adequadamente a vida de Cristo nas paredes das igrejas. Bosch, sem deixar de ser cristão, certamente foi um destes atrevidos que renovou a maneira de representar a esfera espiritual. Outro marco essencial para o mestre foi alcançar o berço da arte renascentista, mais especificamente em Veneza, região onde até hoje encontra-se algumas de suas obras evidenciando sua distinção dos mestres italianos. Aqui no Brasil, a pintura intitulada "As Tentações de Santo Antão" foi adquirida por Assis Chateaubrind e atualmente pode ser encontrada no acervo do Museu de Arte de São Paulo, o MASP.


Referências:
Coleção Grandes Mestres. BOSCH. São Paulo, 2011 (Livro).

Ernst Hans Gombrich. A HISTORIA DA ARTE. Rio de Janeiro, 2013 (Livro).

Luiz Ferrcine. ERASMO DE ROTTERDAM: O MAIS EMINENTE FILÓSOFO DA RENASCENÇA. São Paulo, 2011 (Livro).


terça-feira, 31 de março de 2015

A arte dos connoisseurs chineses

A civilização chinesa passou por inúmeros períodos de caos, instabilidade e guerra civil ao longo de sua imensurável história. A origem deste povo é imprecisa e está cercada de mitos e lendas que se confundem com as evidências arqueológicas daquele país. Desde os mitológicos líderes pré-dinásticos, passando pela fábula do Imperador Amarelo até o registro chinês do dilúvio universal, a cultura chinesa se mostra recheada de alegorias que a torna tão singular até os dias de hoje. Não é à toa que suas lendas se transformam constantemente em releituras nos mais diversos suportes artísticos, seja no cinema, nas artes visuais, no teatro ou nos quadrinhos. Por exemplo, qual jovem não conhece o personagem Son Goku, o protagonista do mangá Dragon Ball? Este foi livremente baseado na lenda denominada Saiyuki a qual está repleta de elementos budistas e taoistas.


Assim como na arte egípcia, vemos na antiga produção cultural chinesa uma forte inspiração da religião. O Budismo influenciou a arte chinesa ao introduzir uma nova abordagem da pintura: a reverência pela realização do artista. Este expressava sua personalidade e caráter por meio da técnica com pincel e tinta utilizada por seus antecessores. Ou seja, desde tempos remotos, a China já tinha apreço pela originalidade enquanto expressão da personalidade, mesmo sem ignorar os mestres famosos e muito menos abdicar de certos cânones para atingir maestria. Conhecido por Os Seis Cânones da Pintura, a tradição estabelece seis elementos essenciais para orientar a criação da obra.

A criação artística, para este povo, não era considerada como uma tarefa subalterna, por isso que os pintores eruditos eram denominados connoisseurs, grandes mestres. Também sendo primorosos na fundição do bronze e apreciadores da arte funerária/tumular, esta civilização se distinguia da egípcia nas concepções estéticas a qual nota-se a preferência por curvas sinuosas que sugerem movimento e graciosidade. Isso provavelmente se dava pela tênue semelhança que os chineses aplicavam na escrita caligráfica e na pintura. Tanto uma quanto a outra necessitavam dos mesmos equipamentos e buscavam a mesma meta de propiciar um estado meditativo para quem as contemplasse. Assim, frequentemente, o artista escrevia versos poéticos no mesmo rolo de seda em que pintava. E mesmo que estas fossem monocromáticas, o domínio da variação de tons e dos estilos de pinceladas conduziam o artista ao aperfeiçoamento do que chamavam de Cinco Cores.

Daí que surge a estética chinesa da cor, das técnicas monocrômicas, das pinceladas firmes e vigorosas, da identificação do connoisseur chinês com o princípio da vida. O ato de pintar era visto como uma expressão de maturidade, assim, antes de se dedicarem à pintura, os artistas primeiro se destacavam na sociedade como eruditos, calígrafos e/ou poetas. Pois a pintura não era vista como profissão, assim os pintores chineses atingiam sua excelência depois de se submeterem à uma rigorosa disciplina intelectual. Ao conduzirem-se por esta via tão distinta dos ocidentais, embora pudessem produzir réplicas da realidade ou imitar a natureza como os gregos, os artistas orientais colocavam primeiro sua personalidade em harmonia com o princípio cósmico e permitiam que seu coração se integrasse com o ch'i, para que o Tao se expressasse por meio dele, fazendo da pintura uma extensão da arte de viver.


Referências:
Ernst Hans Gombrich. A HISTORIA DA ARTE. Rio de Janeiro, 2013 (Livro).

Harold Osborne. ESTÉTICA E TEORIA DA ARTE - uma introdução histórica. Londres e Harlow, 1968 (Livro).


domingo, 22 de março de 2015

Carta aos Romanos

Assim como nas civilizações já mencionadas anteriormente, os romanos também eram politeístas. A variedade de deuses adorados nas mediações do Império Romano era tamanha que, durante o reinado do Imperador Adriano, foi construído o Panteão de Roma com o intuito de reunir o culto à todas estas divindades em um único templo. As construções arquitetônicas desta civilização se desenvolveu em um caminho distinto dos gregos devido ao uso dos arcos e abóbadas, os quais permitiram que os romanos criassem espaços internos mais amplos e também os famosos aquedutos. Neste contexto histórico, temos o conhecimento de Saulo de Tarso, cidadão romano de procedência judaica que ficou bastante conhecido pela perseguição dos primeiros cristãos na Judeia até que o próprio Jesus lhe apareceu na estrada de Damasco. 

Ironicamente, Saulo que era o perseguidor de cristãos, ao se tornar um, foi perseguido pelos judeus e só não foi crucificado pois era um cidadão romano. Antes de ser capturado e preso em Jerusalém, Paulo escreveu sua famosa carta para os cristãos que residiam em Roma, aproximadamente em 57 d.C, anunciando seu entendimento sobre o evangelho e as doutrinas dos seguidores de Cristo. Difícil é tentar compreender a gradual expansão do cristianismo mesmo neste contexto de perseguição. Desde o ano 64 de nossa era com o Imperador Nero até 305 sob o governo de Diocleciano, cristãos eram assassinados, incendiados e brutalizados para o entretenimento da população romana. Deste modo, Paulo escreveu para aqueles desamparados que não tinham templos para se reunir, mas que devido às perseguições, realizavam suas assembleias dentro de residências e também em galerias subterrâneas conhecidas por catacumbas.


O espaço dentro dessas galerias serviam inicialmente para sepultar os mártires, aqueles que morreram pela sua fé e que desejavam ser ressuscitados por Jesus integralmente, já que acreditavam que o costume romano de cremação poderia interferir neste objetivo. Quando estas galerias foram redescobertas, descobriu-se as primeiras manifestações de pintura cristã realizadas inicialmente por homens do povo e não grandes artistas, daí as características simples e até mesmo toscas, de forma rude ou grosseira como é relatada pelos historiadores. Nestas pinturas simbolistas, vemos por exemplo o peixe, que em grego se escreve ICHTYS coincidindo com a expressão "Iesous Christos, Theou Yios, Soter" (em português "Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador") e o qual inclusive é utilizado por cristãos até os dias de hoje. Este relacionamento entre arte e cristianismo se tornou cada vez mais íntimo e isto pode ser observado na arte bizantina, gótica e até mesmo depois da Idade Média.

Saulo, que também era chamado de Paulo, após se converter fez três viagens missionárias e só conheceu a capital do Império quando tinha cerca de cinquenta anos. O livro bíblico de Atos dos Apóstolos narra esta viagem de Cesareia à Roma no capítulo 27, sendo considerado o relato mais completo daquele tempo de uma viagem por mar num navio à vela. Neste mesmo livro, temos um outro curioso relato ocorrido na cidade de Éfeso localizada na província asiática do Império Romano, onde um ourives chamado Demétrio lucrava muito com a venda de miniaturas do templo da deusa Diana em prata, e viu seu negócio ameaçado com a pregação monoteísta de Paulo e seus companheiros. Estes últimos foram capturados pelos cidadãos de Éfeso e levados à um teatro onde só não foram assassinados pela multidão revoltada graças à intervenção do secretário da prefeitura da cidade.


Referências:
Graça Proença. HISTÓRIA DA ARTE. Sem ano (PDF).

Sociedade Bíblica do Brasil. BÍBLIA DE ESTUDO NTLH. 2012 (Livro)*.


*Esta tradução também pode ser acessada NESTE LINK.


segunda-feira, 16 de março de 2015

Conhece-te a ti, grego

Nas cidades-estado gregas, os artistas eram como operários comuns não sendo considerados membros da alta sociedade, porém, participavam nos assuntos de governo na época em que a democracia ateniense atingiu o seu mais elevado nível, paralelamente ao apogeu da arte grega. Todo o conhecimento artístico, científico e cultural que herdamos desta civilização está tão inerente a nós que as vezes mal lembramos que ela nos legou a matemática, geometria, filosofia, o teatro e os jogos olímpicos, e que inclusive o novo testamento foi escrito originalmente na língua grega.


O curioso neste último ponto é que as cosmovisões e os modos de pensar dos gregos e dos hebreus eram muito distintos. Enquanto os primeiros viam o curso da história de forma cíclica, os outros viam de forma linear. A individualidade que para um era um valor supremo, não era compartilhada pelos hebreus que viam uma ligação inseparável entre o indivíduo e o grupo, enfatizando a vida em comunidade. Também pros hebreus, as essência e função das coisas eram mais importantes que a forma e a aparência. Portanto, quando ousamos descrever objetos ou até mesmo pessoas, e damos ênfase na aparência delas, estamos reproduzindo a visão grega.

Além do que já foi dito, a escultura grega clássica já bastante admirada antes do período helenístico, chegou aos nossos tempos graças aos romanos que eram grandes apreciadores e reprodutores desta modalidade artística. O cristianismo poderia até ser o culpado pela destruição em larga escala destas imagens originais de deuses pagãos, se o que víssemos hoje em dia nas igrejas católicas não fosse exatamente o contrário disto, pois os primeiros gregos e romanos recém-convertidos ao cristianismo estavam tão acostumados com as imagens e ídolos em seu cotidiano que logo as renomearam com nomes cristãos. Temos, por exemplo, uma escultura de Júpiter a qual foi posteriormente nomeada de Pedro. Rômulo e Remo logo viraram Cosme e Damião e até mesmo Jesus e Maria foram frequentemente associados as imagens de Esculápio (deus curandeiro de cabelos engrenhados e barba longa) e Ísis (que embora seja originalmente a deusa egípcia da maternidade, teve seu culto bastante difundido no mundo mediterrâneo, principalmente no período helenístico).

Deste modo, as presença, reverência e adoração das imagens de santos na igreja também são herdados dos costumes greco-romanos. Mais pra frente também veremos como esta cultura clássica será recapitulada por diversos períodos da história da arte. Até mesmo o genial dramaturgo do teatro pós-dramático, Bob Wilson, revelou que a fonte para sua dramaturgia é o rearranjo do teatro clássico e de tudo aquilo que nos antecedeu nesta modalidade (a origem das encenações teatrais remonta ao século V a.C. a partir dos ditirambos, que são cantos em honra do deus Dionísio). A civilização grega abraçou esta arte de tal maneira, que ela era inclusive representada em pinturas e mosaicos. Atualmente ainda vemos encenações das obras de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, os pais da tragédia, sendo realizadas pelos teatros mundo à fora. No Brasil, a forte presença da arte do teatro se apresenta principalmente no gênero comédia que é o mais atraente para o público leigo e que também teve espaço na famigerada Poética de Aristóteles.

Referências:
Amazing Facts. REVELATION: THE BRIDE, THE BEAST & BABYLON. 2013 (Documentário).

Eduardo Rueda. O PENSAMENTO HEBRAICO COMPARADO AO GREGO. 2013. (Artigo).

Ernst Hans Gombrich. A HISTORIA DA ARTE. Rio de Janeiro, 2013. (Livro).